Depois de quase 3 meses desde a última prova feita (Dezembro/2011), a aventura desta vez estava cheia de pecualiaridades, para não dizer dificuldades.
O ano novo veio e, com ele, vieram despesas e mais despesas. Além disso, os nobres organizadores de provas parecem que se inspiraram nos juros de cartão de crédito para determinar os seus percentuais de aumento. O número 70 parece ter se tornado como piso… Independente de acharem justo ou não, o orçamento apertou e acabei tendo de escolher a dedo em quais provas participarei em 2012.
Diante disso e do desejo de enfrentar grandes desafios como preparação para a Maratona do Rio, a prova Cidade de Aracaju (São Cristovão-Aracaju-25k) caiu feito uma luva. Inscrição de R$40 e alguns amigos dispostos a fazer o racha de gasolina e hotel me fizeram decidir que esta seria a minha estreia no ano.
O encontro foi marcado para o posto de combustível na saída da cidade e o horário 6h. Não tão britânicos assim, partimos numa primeira leva de 3 carros. E, apesar dos 300km a serem vencidos, a paisagem da Linha Verde e da chegada na orla de Sergipe compensa qualquer cansaço.

Logo na chegada, fomos atrás dos nossos kits. Simples sim, mas com as costumeiras camisetas (de qualidade um pouco duvidosa mas até bonita), número e chip descartável. Isso sim uma boa idéia, entregar o chip antecipadamente e não quase na hora da prova. Um pequeno imprevisto que até já esperávamos quando não acharam nossa inscrição, mas rapidamente resolvido com as cópias impressas que levamos. Por pura obra do destino, desta vez eu correria com um número marcante: 900.



Com os kits nas mãos, foi hora de fazer check-in no hotel e buscar encher o estômago de macarrão. O local escolhido foi perto do hotel, com deslocamento a pé mesmo.
Barriga cheia (no meu caso bem cheia, diga-se de passagem), o próximo passo era tirar uma soneca de 1hora, pois a partida para a largada estava agendada para 14:45h. E assim foi, bater na cama e dormir.
Nem acreditei que já estava na hora quando o celular tocou. Parecia que tinha dormido uns 10 minutos. Com a preguiça reinando, não restou outra alternativa a não ser um banho gelado (nem tanto, nesta hora os termômetros passavam dos 30ºC).
Equipamento vestido, desci para o saguão do hotel, onde parte da trupe já esperava. E no final das contas, entre corredores, amigos, torcida e suporte, tinha até uma boa turma. Ponto negativo para mim, que desta vez segui sem minhas meninas. Estar entre amigos foi muito bom, mas esposa e filha fazem muita falta sempre, principalmente nestas aventuras.

Seguimos espremidos em 3 carros até a largada, localizada na histórica São Cristovão (primeira capital de Sergipe). O caminho foi assustador, pois seguimos pela mal falada e eternamente em obras BR101. Além do movimento e da precariedade da pista, as longas subidas mostravam que o retorno seria osso duro de roer. Na bem da verdade, ninguém foi pra lá desavisado do relevo, mas quando realmente se vê os tamanhos dos morros, a barriga esfria de vez.
Mesmo com a antecedência que saímos, acabamos chegando em cima do laço e nem pudemos tietar os queniamos e a turma da elite brasileira. Mas o tempo foi suficiente para os últimos preparativos, incluindo o famoso “pipi-stop”.

Pontualmente às 16h, soou a buzina na Praça da Igreja e com muitas palmas e animação, partimos pelas ruas de paralelepípedo da bela cidade histórica. Apesar do ligeiro desconforto do piso, este primeiro trecho dentro da cidade foi muito legal, assim como seria durante o percurso todo. Muito apoio dos moradores e um grande suporte da polícia e resgate de Sergipe.
Com um olho no relógio e outro na pista, a meta era manter o ritmo sem deixar me empolgar demais pela torcida. E assim ouvi o aviso de primeiro km, com interessantes 5:48min. O ritmo parecia um pouco acelerado demais, pois me programei para cumprir a prova no regime de 6 min/km. Mas as pernas respondiam bem.
O Sol pegava forte no céu, mas a adrenalina comandava as pernas rumo à saída da cidade. Ao longe, já era possível ver a estrada estreita cheia de corredores mais afortunados, assim como a primeira subida. O frio na barriga já tinha passado e foi substituído pelo suor escorrendo. E o km2 chegou, anunciando que mesmo já com as primeiras pequenas subidas, o ritmo estava bom: 5:46min. Este foi o fim da linha da cidade e o começo do “serrote” da estrada.

A primeira real subida apareceu e lá fomos nós rumo ao aclive de 16m. Junto com ela, o primeiro posto de água, que seria repetido quase religiosamente a cada 3km. E até fiquei surpreso ao escutar o anúncio e ver que tinha passado impune por ela: 5:47min. Neste ponto acabei me separando do amigo JJ, que seguiria uma estratégia mais conservadora.
Como tudo que sobe uma hora desce (ou deveria descer), lá fomos nós para o km4 e o primeiro trecho ladeira abaixo. Hora de descansar e de recuperar algum tempo perdido. Abri a passada, mas tentei me concentrar em algum colega que parecia estar mais ou menos no meu ritmo. O medo aqui era acelerar demais e deixar de descansar. Me sentia de certa forma recuperado quando o relógio anunciou o fechamento da volta em 5:14min.
Mal acabou o trecho de descida e logo avistei o caminho morro acima. Não era uma subida… era “A Subida”. Um desnível de 33m ladeira acima. Para quem não costuma correr, parece pouco. Mas quem corre sabe que é muito. E lá fomos nós, literalmente “serpentiando” o morro. Curva à esquerda, curva à direita e nada de acabar. Na base do devagar e sempre, fui vencendo aquele monstro. O coração parecia que iria sair pela boca, mas enfim escutei o alarme de km5 e constatei que pelo menos para este primeiro quinto da prova, tudo estava bem: 6:00min. Ou seja, os primeiros 5 km tinham sido vencidos em 28:35 min, uma bela marca.
A vez agora era de descer de novo e descer muito (24m). Momento para dar uma relaxada e curtir a torcida que se acumulava na beirada da pista. Hora de pegar novo copo de água e começar a levá-lo junto para o próximo trecho. Mais à frente, era possível ver que vinha uma sequência de subidas e descidas. Também à frente, vi que o amigo Rogério seguia numa passada ritmada. Aos poucos fui me aproximando dele e recebi o aviso de km6. Tempo muito bom de 5:02min e o receio que tinha acelerado demais. Porém, pernas e pulmões me diziam que estava tudo certo.
Ao passar por Rogério, deixei meio copo dágua com ele e recebi o incentivo para seguir em frente. A estratégia dele também seria um pouco mais conservadora para esta parte da prova.
Entre os km 7 e 9, foi uma sequência de sobe-desce até interessante, pois quando as pernas avisavam que não aguentariam, vinha uma descida para aliviar e acelerar. O importante é que o pace esteve sempre igual ou menor que 5:30 min. Neste trecho, várias crianças estavam na beira da pista, fazendo questão de dar aquela batida de mão. Alguns corredores profissioanais (leia-se pessoas com pouco senso de humor) desviavam das crianças. Eu, amador nato e muito feliz com a oportunidade de correr naquele lugar especial, fiz questão de bater em cada uma daquelas mãozinhas. E me arrepiei todo quando um destes pequenos me acompanhou alguns metros me pedindo o boné. Juro que até levei a mão para tirar, mas o Sol ainda pegava forte e o boné branco não era mero adereço. Prometi a mim mesmo que, caso volte a correr lá ano que vem, levarei pelo menos um de reserva para retribuir toda a força recebida.
Então chegou o km10. Outro ponto de checagem de tempo acumulado. Felicidade garantida ao ver que tinha fechado este trecho em pouco mais de 56 minutos. Felicidade garantida porque sentia as pernas quentes e afiadas. Mas… lá vem ladeira de novo… lá vem mais 30 m de elevação.
Foi nesta ladeira que o Capitão Éder me passou esbanjando alegria e me chamando para acompanhá-lo. Eu estava bem… mas ele estava bem mais rápido. Um ligeiro boa sorte e lá fomos nós. Na média, eu mais ultrapassava do que era ultrapassado. E dentre os ultrapassados estava o amigo Mateus, que subia num ritmo mais lento, mas não menos forte. Forte também estava o mal humor dele, parecia que tinham pisado no calo dele kkk…
Os km 11 e 12 vieram e nova sequência de subidas e descidas, com média acumulada de 5:37 min/km. Eu mal conseguia acreditar que estava chegando à metade da prova com uma bela gordura frente aos 6×1 programados. E a torcida? Firme e forte!
O 13 que é o número do azar para uns e de sorte para outros, foi muito bem vindo. Longa descida e hora de acelerar/descansar de novo. Sempre levando um copo dágua de reserva, tomei aquele banho refrescante e segui em diante. Ao longe, consegui ver que o Capitão Éder tinha chegado ao estreiante Anderson Mineiro e juntos seguiam. Também percebi que eu estava me aproximando deles. Um bom pace na descida (5:11min) era o responsável por esta aproximação.
Mas então, lá veio outra subida. Não tão forte como as outras que eu já havia passado, mas a elevação somada ao cansaço acumulado, me fez pensar que era hora de diminuir. E achei que tinha diminuido. Quase não acreditei quando o relógio me despertou dos aplausos da população para me mostrar 5:18 min. Sim, eu havia enfrentado a ladeira com uma boa velocidade, mesmo tendo a impressão de desaceleração. E confirmei o bom tempo ao ver que estada cada vez mais próximo da dupla companheira de clube de corrida.
E decidi chegar junto com eles quando vi que vinha pela frente uma grande descida (a maior da prova – 38 m). Hora de fazer o melhor trecho da prova e, pela primeira e única vez, ver um pace abaixo dos 5. Trecho cumprido com 4:53 min e agora sim junto com os amigos. Momento de aproveitar o posto de água com garrafinha e refrigerar a máquina. Hora de fazer a avaliação dos 15k e planejar a chegada. Acumulado de 1h e 22min e a certeza de que seria possível fazer abaixo da meta.
Os km 16, 17 e 18 foram trechos de plano-descida. E aproveitei para descansar um pouco, pois não havia razão para gastar as reservas antes das subidas finais. Com isso, mantive o pace na faixa de 5:35 min/km, fechando este pedaço da prova com pouco menos de 1h e 40min. Esta também foi a hora que nosso Capitão Éder acelerou e que eu e o Mineiro passamos a correr sempre no mesmo ritmo.
E a paz parecia ter acabado quando uma nova (e não muito grande) subida apareceu. As pernas já não eram as mesmas de antes e o ritmo foi afetado. O sinal de alerta se acendeu ao espiar o relógio e ver que tinha feito em 5:55 min. Sinal mais do que ligado quando algumas pequenas pontadas no posterior de coxa foram sentidas. Sinal de alerta confirmado quando o amigo Mineiro disse que estava cansado e com sede.
E, pela primeira vez na prova, tive a animação afetada ao descer um pouco para passar sob o viaduto da rodovia de chegada em Aracaju e visualizar a última subida. Isso, já no km 20, com todo o desgaste acumulado da prova, teríamos de enfrentar nada menos do que um desnível de 26m. Foram 26m que pareceram 100m. Boca seca, suor caindo às bicas e misto de pânico e cansaço ao ver o bip do relógio ser acompanhado pelos números 6:12… sei que já estávamos no trecho final, dentro da cidade, mas um sino bateu dentro da minha cabeça e avisou: “O gás acabou”. E o pânico quase virou desespero quando passamos pelo posto de água e vimos muitas garrafas… só que elas estavam vazias e jogadas no chão. Ou seja, depois de subir um morro e “fechar” a Meia Maratona, zero água.
Aí, os primeiros comentários de cansaço do Mineiro, viraram “ameaças” de parar. E eu não podia deixá-lo parar já tão próximo da chegada e com um tempo acumulado tão bom. As palavras de motivação para ele, também serviam para mim. A cada “Falta pouco, agora você não pode parar”, no fundo, eu estava falando para mim mesmo também. E como miséria pouca é bobagem, quando fui tentar mudar a tela do Garmin para conferir o tempo da Meia, constatei que o suor somado aos banhos de água acabaram por travar o aro, ou seja, só saberia nosso tempo depois de chegar.
Um fato inusitado marcou este trecho. Quando passávamos ao lado de um companheiro de prova, ele deu uma “golada” no copo quase cheio e o arremessou no chão. O Mineiro quase voou no pescoço do cara kkk….Brincadeiras à parte, esta é uma coisa que eu cuido. Nunca jogo fora um copo ainda com água, antes de oferecer para algum companheiro de prova. Muitas vezes, aquilo que é sobra de água morna pra mim, pode ser o manjar dos deuses para quem está extenuado.
Com esta piada de mal gosto, seguimos para o km 22, aproveitando um pequeno declive. Boa notícia que rodamos abaixo dos 6minutos, mas o cansaço era grande.
Mais à frente, não conseguia definir bem se era uma miragem ou se era um posto de água. Porém, o fôlego pareceu renovado e seguimos na pista plana. Daquele ponto em diante, era mais coração do que perna e pulmão. E a miragem se materializou com uma bela e gelada garrada de água. Um tanto boca a dentro, outro tanto cabela a baixo. Bip do relógio mostrando pace de 5:42 min e a linda visão da orla chegando. Ou seja, linha de chegada por perto.
Na bem da verdade, desde a largada eu sabia que eram pouco mais de 24,3km a serem vencidos. Mas esta diferença só passou a ser considerada quando chegamos na esquina e avistamos o funil de chegada. Não tão perto, mas já dava pra ver. Quase junto, o relógio anunciou o km24 e este foi totalmente desprezado por mim.
O coração acelerou, a adrenalina tomou conta e quase puxando o amigo Mineiro pelo braço, acelerei. É claro que eu sabia que o tempo seria inferior ao programado. É claro que eu sentia menos do que pensei que sentiria. É lógico que quando avistei os amigos de clube de corrida com a famosa camiseta amarelinha, os olhos encheram de lágrimas e o sorriso abriu de orelha a orelha. Estas últimas palmas e estes últimos gritos de incentivo foram os responsáveis por eu cruzar o pórtico de chegada quase a 17km/h. Uma espiada de leve no relógio oficial da prova me mostrou que eu tinha girado em torno de 2h e 16min.

Lágrimas de prazer, pois as pernas pareciam nem estar conectadas ao corpo. Era muita adrenalina e a dor do cansaço só foi aparecer bem depois. O sentimento era um só: eu tinha feito a melhor prova da minha vida!
Seria deselegante e injusto agradecer a alguns, pois tenho certeza que esqueceria de muitos. Mas agradeço a todas as pessoas que estiveram comigo nesta prova ou treinaram comigo ou simplesmente torceram por mim.

A única coisa que ficou faltando foi a companhia dos amores da minha vida Kelly e Bárbara. Mas tenham certeza que corri cada metro desta prova com vocês no coração!
Obs: o tempo oficial foi de 2horas, 15 minutos e 25 segundos.
